Pancreatite em cachorro: causas, sintomas, tratamento e cuidados essenciais

Por Redator Cobasi

Com colaboração: Joyce Lima
Tempo de leitura: 21 minutos

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pancreatite em cães
Foto: Adobe Stock

Pancreatite é a inflamação do pâncreas, um órgão essencial para o funcionamento do organismo. Em cães, essa condição afeta diretamente a digestão e pode provocar dor abdominal intensa, alterações metabólicas e, em casos mais graves, risco à vida do animal.

O pâncreas tem duas funções principais: produzir enzimas digestivas, responsáveis por quebrar gorduras, proteínas e carboidratos dos alimentos, e liberar hormônios, como a insulina, que ajudam a controlar os níveis de glicose no sangue. 

Em situações normais, essas enzimas só entram em ação no intestino. Nesse quadro, ocorre a ativação precoce dessas substâncias dentro do próprio pâncreas, o que desencadeia um processo de autodigestão, inflamação local e dor significativa.

Os sintomas de pancreatite em cães costumam surgir de forma súbita e variam de intensidade. Entre os sinais mais comuns estão dor abdominal, vômitos, diarreia, apatia e desidratação.

Muitos cães demonstram dor abdominal ao se movimentar ou quando o abdômen é tocado e podem adotar uma postura encurvada, tentando aliviar o desconforto. 

Em quadros mais graves, também podem ocorrer alterações nas fezes, perda de peso e piora rápida do estado geral.

A pancreatite é considerada uma doença grave, mas tem tratamento e pode ter cura, especialmente quando o diagnóstico é feito precocemente. 

Quanto antes a pessoa responsável pelo pet reconhecer os sinais e buscar atendimento veterinário, maiores são as chances de recuperação e menores os riscos de complicações.

Este guia foi desenvolvido com a colaboração da médica-veterinária Joyce Lima (CRMV-SP 39824), da Educação Corporativa Cobasi, para garantir informações seguras e confiáveis sobre pancreatite canina.

Quais são os sintomas de pancreatite em cachorro?

A pancreatite em cães pode ser difícil de identificar logo no início, já que os sinais clínicos costumam ser inespecíficos, variam conforme a gravidade da inflamação e podem se confundir com outros distúrbios do trato gastrointestinal. 

O sintoma mais frequente e característico da pancreatite, especialmente na forma aguda, é a dor abdominal intensa

Esse desconforto pode ser percebido quando o cachorro evita se movimentar, reage ao toque na região abdominal ou adota a chamada posição de “prece”, com o peito apoiado no chão e a parte traseira elevada, na tentativa de aliviar a dor.

De acordo com a médica-veterinária Joyce Lima, esses sinais costumam aparecer de forma associada:

“Geralmente, animais com essa enfermidade apresentam aumento de volume e enrijecimento do abdômen, vômito, diarreia, falta de apetite, desidratação e fraqueza.”

Em quadros mais graves, os sinais sistêmicos se tornam mais evidentes. Um estudo com cães diagnosticados com pancreatite aguda mostrou que:

  • 97% dos cães apresentavam desidratação;

  • 58% sinais claros de dor abdominal;

  • 32% febre;

  • 26% icterícia;

  • 43% estavam acima do peso ou obesos.

Esses dados reforçam que a inflamação pancreática pode se estender para órgãos próximos, como fígado, estômago e intestino, aumentando o risco de complicações como icterícia, peritonite e, em situações extremas, alterações respiratórias e insuficiência renal.

Em casos crônicos, os sinais podem surgir de forma discreta ou intermitente, o que dificulta o reconhecimento precoce da doença. 

Por isso, qualquer alteração persistente no apetite, no comportamento ou no padrão gastrointestinal do cachorro, especialmente quando associada à dor abdominal, deve ser avaliada por um médico-veterinário.

Por que o pâncreas inflama? Entenda o mecanismo da doença

Ilustração médica em 3D do pâncreas de um cão.
Ilustração médica em 3D do pâncreas de um cão. Foto: Adobe Stock

Em condições normais, as enzimas digestivas produzidas pelo pâncreas permanecem inativas e só entram em ação quando chegam ao intestino delgado. Esse mecanismo de proteção impede que o próprio órgão seja digerido.

Na pancreatite, ocorre uma falha nesse sistema. As enzimas passam a ser ativadas de forma precoce, ainda dentro do pâncreas, iniciando um processo de autodigestão.

Esse processo provoca inflamação local, dor intensa e pode levar à destruição do tecido pancreático. À medida que a inflamação se intensifica, podem ocorrer alterações estruturais no órgão e nos tecidos ao redor, como:

  • necrose do tecido pancreático;

  • inflamação da gordura ao redor do órgão;

  • liberação de substâncias inflamatórias na corrente sanguínea.

Nos casos mais graves, essa resposta inflamatória pode se tornar sistêmica, afetando outros órgãos e aumentando o risco de complicações sérias, como choque, coagulação intravascular disseminada e falência múltipla de órgãos.

Quais são as causas da pancreatite em cães?

Na maioria dos casos, não é possível identificar uma causa única e específica para a pancreatite em cães. 

Estudos indicam que cerca de 90% dos episódios de pancreatite aguda são considerados idiopáticos, ou seja, surgem sem um fator claramente identificável no histórico do animal.

Ainda assim, a medicina veterinária já reconhece uma série de fatores predisponentes que aumentam o risco de inflamação do pâncreas, como:

  • Alimentação rica em gordura, especialmente consumo de restos de comida humana e petiscos em excesso.

  • Obesidade, que sobrecarrega o metabolismo e o funcionamento do pâncreas.

  • Doenças endócrinas, como diabetes mellitus, hiperadrenocorticismo (síndrome de Cushing) e hipotireoidismo.

  • Hipertrigliceridemia, alteração comum em algumas doenças hormonais.

  • Doenças do trato gastrointestinal e das vias biliares.

  • Traumas abdominais, como quedas ou atropelamentos.

  • Situações de isquemia ou má perfusão, associadas a cirurgias, choque ou dilatação vólvulo-gástrica.

  • Hipercalcemia, caracterizada por níveis elevados de cálcio no sangue.

Predisposição individual e fatores genéticos

Além dos fatores clínicos já descritos, algumas características individuais aumentam o risco de pancreatite em cães. Estudos indicam maior ocorrência da doença em:

  • cães de meia-idade a idosos, especialmente naqueles com excesso de peso;

  • fêmeas castradas;

  • animais que já possuem doenças metabólicas;

  • cachorros diagnosticados com diabetes mellitus, hiperadrenocorticismo (síndrome de Cushing) ou hipotireoidismo.

Algumas raças, como Terriers, Retrievers e Schnauzer miniatura, já foram citadas em estudos como mais propensas à pancreatite. (Nelson & Couto, 2015).

Ainda assim, a influência genética não é totalmente esclarecida, e a avaliação deve ser feita de forma individual, considerando o histórico de saúde e o estilo de vida de cada cachorro.

Como é feito o diagnóstico da pancreatite em cães?

O diagnóstico da pancreatite em cães é considerado um dos maiores desafios da rotina veterinária. Isso acontece porque não existe um único exame simples e definitivo capaz de confirmar a doença de forma isolada, especialmente nos casos leves, iniciais ou crônicos.

Na prática, o diagnóstico é construído a partir da associação entre sinais clínicos, histórico do animal, exames laboratoriais e exames de imagem, sempre com interpretação cuidadosa por parte do médico-veterinário.

Quais exames o médico-veterinário pode solicitar?

Cachorro fazendo exame  de ultrassonografia abdominal no veterinário
Foto: Adobe Stock

Ao investigar a suspeita de pancreatite, é comum que o veterinário solicite um conjunto de exames, e não apenas um teste isolado. Entre os principais estão:

  • Exames de sangue, que ajudam a identificar inflamação, alterações metabólicas, distúrbios eletrolíticos, alterações na glicemia e possíveis complicações associadas, como envolvimento do fígado ou dos rins;

  • Dosagem da lipase pancreática específica canina (cPL), atualmente considerada o exame laboratorial mais útil para auxiliar no diagnóstico da pancreatite, por medir uma enzima produzida exclusivamente pelo pâncreas;

  • Ultrassonografia abdominal, exame de imagem mais indicado na investigação da pancreatite, pois permite avaliar diretamente o pâncreas e estruturas próximas, além de descartar outras doenças com sinais semelhantes;

  • Exames complementares, como radiografia abdominal, que não confirmam a pancreatite, mas ajudam a excluir causas de dor abdominal aguda, como obstruções intestinais ou dilatação gástrica.

É importante destacar que resultados normais não excluem totalmente a pancreatite, principalmente em fases iniciais ou em quadros crônicos. Por isso, o diagnóstico deve sempre considerar o conjunto das informações clínicas e laboratoriais.

O que observar em casa e relatar ao veterinário ajuda no diagnóstico?

As informações fornecidas pela pessoa responsável pelo cachorro são fundamentais para que o diagnóstico seja mais rápido e preciso. Pequenos detalhes do dia a dia podem fazer grande diferença na investigação clínica.

Sempre que possível, é importante relatar ao veterinário:

  • quando os sintomas começaram e se surgiram de forma súbita ou gradual;

  • presença de dor abdominal, dificuldade para se movimentar ou postura encurvada;

  • episódios de vômito, diarreia ou alterações nas fezes;

  • mudanças no apetite, recusa alimentar ou perda de peso recente;

  • consumo recente de alimentos gordurosos, restos de comida ou petiscos fora da rotina;

  • uso atual ou recente de medicamentos;

  • histórico de doenças como obesidade, diabetes, problemas hormonais ou gastrointestinais;

  • alterações no comportamento, como apatia, fraqueza ou prostração.

Quanto mais completas forem essas informações, maiores são as chances de um diagnóstico correto e de um tratamento iniciado sem atrasos, reduzindo o risco de complicações associadas à pancreatite.

Condições que podem apresentar sintomas semelhantes à pancreatite

Dor abdominal, vômitos, diarreia, apatia e perda de apetite não são sinais exclusivos da pancreatite em cães, o que torna o diagnóstico mais desafiador. 

Esses sintomas podem estar presentes em diversas outras doenças. Por isso, a investigação veterinária é fundamental para identificar a causa real do problema e iniciar o tratamento adequado o quanto antes.

Entre as principais condições que podem causar sintomas semelhantes aos da pancreatite estão:

  • Gastroenterite aguda, geralmente associada à indiscrição alimentar, infecções ou intoxicações;

  • Obstrução intestinal, causada por corpos estranhos, tumores ou torções, podendo provocar dor intensa e vômitos persistentes;

  • Dilatação vólvulo-gástrica, uma emergência grave que cursa com abdômen distendido, dor intensa e rápida piora do estado geral;

  • Doenças hepáticas e biliares, como hepatites e colangites, que podem causar vômitos, icterícia e apatia;

  • Úlceras ou inflamações do trato gastrointestinal, incluindo gastrite severa e enteropatias;

  • Cetoacidose diabética, especialmente em cães com diabetes mellitus não controlada;

  • Insuficiência renal aguda, que pode provocar vômitos, desidratação e alterações metabólicas importantes;

  • Infecções sistêmicas ou intoxicações, que também cursam com sinais gastrointestinais e prostração.

Como essas doenças apresentam quadros clínicos muito semelhantes, e apenas a associação entre exame clínico, exames laboratoriais e exames de imagem permite diferenciá-las com segurança.

Qual tratamento é indicado para pancreatite em cães?

Veterinário realizando exame em cachorro da raça Siberian Husky
Foto: Adobe Stock

O tratamento da pancreatite em cães é sempre individualizado e depende da gravidade do quadro, da presença de complicações e das condições clínicas gerais do animal.

Como, na maioria dos casos, a pancreatite aguda é considerada idiopática (sem uma causa única claramente identificável), o tratamento é baseado principalmente em suporte clínico intensivo e no controle dos sintomas.

De forma geral, os principais objetivos do tratamento são estabilizar o organismo, aliviar a dor, reduzir a inflamação, corrigir desidratação e distúrbios metabólicos, controlar vômitos e preservar a função do pâncreas e de outros órgãos que possam ser afetados.

Internação e suporte intensivo nos casos moderados a graves

Em quadros moderados ou graves, a internação veterinária costuma ser necessária, especialmente quando o cachorro apresenta vômitos persistentes, dor abdominal intensa, desidratação importante, apatia ou alterações laboratoriais relevantes.

Nesses casos, o tratamento geralmente inclui:

  • Fluidoterapia intravenosa, essencial para corrigir a desidratação, melhorar a circulação sanguínea e reduzir o risco de isquemia pancreática e complicações sistêmicas;

  • Correção de distúrbios eletrolíticos e ácido-base, comuns em cães com vômitos e inflamação intensa;

  • Monitoramento constante, com avaliações clínicas e laboratoriais seriadas para acompanhar a evolução do quadro.

A médica-veterinária Joyce Lima destaca que o manejo clínico precoce é decisivo no tratamento da pancreatite canina:

“O tratamento envolve a administração de fluidos, que além de garantir a hidratação, também melhoram a circulação sanguínea no pâncreas.

A fluidoterapia é considerada um dos fatores mais importantes para reduzir complicações como insuficiência renal, coagulação intravascular disseminada e choque.”

Controle da dor

A pancreatite é uma condição dolorosa, mesmo quando o cachorro não demonstra sinais evidentes. Por isso, o controle da dor é sempre indicado, independentemente da gravidade aparente do quadro.

O manejo da dor é feito pelo médico-veterinário, geralmente com uma abordagem multimodal, priorizando medicamentos seguros para pacientes desidratados ou com alterações circulatórias.

Anti-inflamatórios não esteroidais (AINEs), por exemplo, não costumam ser indicados em muitos casos de pancreatite, devido ao risco de efeitos adversos.

Controle de vômitos e proteção gastrointestinal

Vômitos e náuseas são sinais frequentes na pancreatite e precisam ser controlados para evitar desidratação, aspiração e piora do quadro clínico. 

O veterinário pode prescrever medicações antieméticas adequadas para bloquear os estímulos centrais e periféricos do vômito. 

Em situações específicas, especialmente quando há suspeita de lesões gástricas ou esofágicas, podem ser utilizados protetores gástricos, sempre com indicação clínica individualizada.

É importante destacar que nem todo cachorro com pancreatite precisa de medicação para reduzir a acidez gástrica, e o uso só é recomendado quando há sinais ou risco real de ulceração.

Alimentação

A alimentação é um dos pontos mais importantes no tratamento da pancreatite. Atualmente, sabe-se que o suporte nutricional precoce é benéfico, desde que o animal esteja clinicamente estável e tolere a alimentação.

Então, de modo geral a alimentação é reintroduzida de maneira gradual. São indicadas dietas de alta digestibilidade e baixo teor de gordura, além de refeições fracionadas ao longo do dia, reduzindo o estímulo ao pâncreas.

Em casos mais graves, quando o cachorro não consegue se alimentar voluntariamente, o veterinário pode indicar nutrição enteral por sonda, sempre priorizando métodos seguros e bem tolerados. 

Uso de antibióticos e outros medicamentos

A pancreatite em cães raramente está associada a infecção bacteriana primária. Por isso, o uso de antibióticos não é rotineiro e só é indicado quando há suspeita ou confirmação de complicações infecciosas, como necrose pancreática ou sepse.

Ainda assim, Joyce Lima explica que o uso pode ser necessário em situações específicas:

“O uso de antibiótico para pancreatite canina é indicado quando há risco de infecções oportunistas, sempre com avaliação veterinária.”

Outros medicamentos podem ser utilizados conforme a necessidade clínica, sempre com base na avaliação profissional e na resposta do animal ao tratamento.

Tratamento da pancreatite crônica

Nos casos de pancreatite crônica, o tratamento é voltado principalmente para o controle da doença a longo prazo e prevenção de novas crises:

  • dieta permanente com baixo teor de gordura;

  • controle rigoroso do peso corporal;

  • acompanhamento veterinário regular;

  • diabetes mellitus ou insuficiência pancreática exócrina.

A pancreatite crônica pode evoluir de forma silenciosa, e o acompanhamento contínuo é essencial para manter a qualidade de vida do cachorro.

O papel da pessoa responsável pelo pet durante o tratamento

Durante todo o tratamento, é fundamental seguir rigorosamente as orientações do médico-veterinário. Mudanças alimentares por conta própria, interrupção precoce de medicamentos ou uso de substâncias sem prescrição podem agravar o quadro.

A pancreatite é uma doença séria, mas com diagnóstico precoce, tratamento adequado e acompanhamento contínuo, muitos cães conseguem se recuperar e manter uma boa qualidade de vida.

Qual é o prognóstico da pancreatite em cães?

cachorro com pancreatite canina

O prognóstico da pancreatite em cães é variável e está diretamente relacionado à gravidade do episódio, à extensão das lesões pancreáticas, à presença de complicações sistêmicas e à existência de doenças concomitantes, como diabetes mellitus e distúrbios hormonais.

Estudos clínicos indicam que a taxa de mortalidade associada à pancreatite canina pode variar entre 23% e 40%, especialmente em ambientes hospitalares e centros de referência, onde há maior concentração de casos graves (Quintal, 2019).

Esses números, no entanto, podem parecer elevados, uma vez que incluem pacientes em estado crítico e com comprometimento de múltiplos órgãos.

Esses dados também incluem situações em que a eutanásia é indicada diante da gravidade extrema do quadro ou da ausência de resposta ao tratamento

Bem como situações em que a eutanásia é indicada diante da gravidade extrema do quadro ou da falta de resposta ao tratamento, e não exclusivamente pela inflamação pancreática isolada (Mansfield, 2012; Mansfield & Beths, 2015).

Qual é o prognóstico da pancreatite aguda em cães?

Na pancreatite aguda, o prognóstico em cães pode variar de favorável a reservado, dependendo da intensidade da inflamação, da rapidez do diagnóstico e da resposta inicial ao tratamento de suporte.

Cães que apresentam inflamação restrita ao pâncreas, sem alterações sistêmicas importantes, e que respondem rapidamente à fluidoterapia, ao controle da dor e ao suporte nutricional tendem a evoluir de forma mais positiva.

Por outro lado, a ocorrência de complicações sistêmicas está diretamente associada a um pior prognóstico, sendo considerada um dos principais determinantes de desfecho desfavorável.

  • insuficiência renal aguda e azotemia persistente;

  • distúrbios de coagulação, incluindo coagulação intravascular disseminada (CID);

  • alterações graves da glicemia (hipoglicemia ou hiperglicemia acentuada);

  • hipocalcemia;

  • icterícia e elevação significativa das enzimas hepáticas;

  • choque, acidose metabólica e hipotermia.

Essas alterações refletem uma resposta inflamatória sistêmica desorganizada, que aumenta significativamente o risco de falência múltipla de órgãos (Mansfield et al., 2008; Pápa et al., 2011; Steiner, 2017).

Qual é o prognóstico da pancreatite crônica em cães?

O prognóstico da pancreatite crônica em cães é geralmente reservado a longo prazo, pois se trata de uma condição progressiva e irreversível.

Clinicamente, cães com pancreatite crônica apresentam maior risco de desenvolver:

  • insuficiência pancreática exócrina;

  • diabetes mellitus;

  • recorrência de crises inflamatórias ao longo da vida.

Nesses casos, o prognóstico está fortemente relacionado ao controle nutricional rigoroso, ao manejo adequado das doenças associadas e ao acompanhamento veterinário contínuo.

O objetivo do manejo clínico é reduzir recaídas, minimizar complicações metabólicas e preservar a qualidade de vida do animal ao longo do tempo.

É possível prevenir a pancreatite em cães?

Nem todos os casos de pancreatite em cães podem ser prevenidos, já que uma parcela significativa da doença é classificada como idiopática, ou seja, sem causa única claramente identificável.

Ainda assim, a prática clínica e os estudos veterinários mostram que o controle de fatores modificáveis reduz de forma relevante o risco de novos episódios, especialmente em cães predispostos ou com histórico da doença.

Alimentação adequada e controle do consumo de gordura

A alimentação é um dos principais pontos de atenção na prevenção da pancreatite. Dietas ricas em gordura aumentam a estimulação do pâncreas e estão associadas a maior risco de inflamação pancreática, sobretudo em cães que já apresentaram episódios anteriores.

Por isso, algumas medidas são fundamentais:

  • evitar oferecer restos de comida humana;

  • não exagerar em petiscos, especialmente os mais gordurosos;

  • optar por dietas equilibradas, com baixo teor de gordura e alta digestibilidade, sempre orientadas pelo médico-veterinário.

Mudanças bruscas na alimentação também devem ser evitadas, pois podem sobrecarregar o sistema digestivo e favorecer processos inflamatórios. 

Sempre que houver necessidade de trocar a ração, a transição deve ser feita de forma gradual, conforme detalhamos abaixo:

Manutenção do peso corporal ideal

O excesso de peso é um fator de risco bem documentado para a pancreatite em cães. Animais obesos apresentam maior predisposição a alterações metabólicas, como a hiperlipidemia, que pode contribuir para a inflamação do pâncreas.

Manter o cachorro dentro do peso ideal, com dieta adequada e uma rotina de atividades compatível com sua idade e condição física, é uma medida preventiva essencial.

Controle de doenças associadas

Cães com doenças endócrinas ou metabólicas, como diabetes mellitus, hiperadrenocorticismo (síndrome de Cushing) e hipotireoidismo, apresentam risco aumentado de desenvolver pancreatite.

Nesses casos, o acompanhamento veterinário regular e o uso correto das medicações prescritas são fundamentais não apenas para o controle da doença de base, mas também para reduzir o risco de complicações secundárias, incluindo a inflamação pancreática.

Acompanhamento veterinário contínuo em cães de risco

Cães que já tiveram pancreatite, apresentam doenças crônicas ou pertencem a grupos de risco devem ser monitorados de forma contínua. 

Consultas periódicas, exames de acompanhamento e ajustes precoces na dieta ou no manejo clínico ajudam a identificar alterações antes que se tornem quadros graves.

Prevenção é manejo, não apenas restrição

Prevenir a pancreatite em cães não significa apenas “proibir alimentos”, mas adotar um manejo global de saúde, que envolve nutrição adequada, controle de peso, atenção a doenças associadas e acompanhamento veterinário regular.

Essas medidas não eliminam completamente o risco, mas reduzem a frequência, a gravidade das crises e aumentam a qualidade de vida do cachorro, especialmente naqueles com histórico da doença.

Perguntas frequentes sobre pancreatite em cães

pancreatopatia em cães

Corticosteroides podem causar pancreatite em cães?

Atualmente, o uso de corticosteróides não é considerado, por si só, uma causa comprovada de pancreatite aguda em cães. 

Em contextos clínicos específicos, esses medicamentos podem inclusive fazer parte do tratamento, desde que utilizados com critério, prescrição veterinária e avaliação individualizada dos riscos e benefícios.

O ponto mais importante é que nenhum medicamento deve ser administrado sem orientação profissional. A automedicação pode agravar o quadro clínico, mascarar sintomas e atrasar o diagnóstico correto, aumentando o risco de complicações.

Qual é a gravidade da pancreatite em cães?

A gravidade da pancreatite em cães varia amplamente de acordo com a intensidade da inflamação, a rapidez do diagnóstico e a resposta ao tratamento.

Quando identificada e tratada precocemente, muitos cães se recuperam completamente, sem danos permanentes ao pâncreas ou a outros órgãos. Nesses casos, o prognóstico costuma ser favorável.

Por outro lado, quadros graves de pancreatite podem evoluir com complicações sistêmicas, como insuficiência renal, distúrbios de coagulação, alterações metabólicas importantes e falência de múltiplos órgãos, representando risco à vida.

Pancreatite em cachorro tem cura?

A pancreatite pode ter cura, especialmente na forma aguda, quando o diagnóstico é feito precocemente e o tratamento adequado é iniciado rapidamente. Em casos leves a moderados, muitos cães se recuperam totalmente após o tratamento de suporte. 

No entanto, a pancreatite crônica não tem cura definitiva, pois envolve alterações estruturais irreversíveis no pâncreas.

Nesses casos, o objetivo do tratamento é controlar a doença, evitar novas crises e preservar a qualidade de vida do cachorro, por meio de dieta adequada, acompanhamento veterinário contínuo e manejo das doenças associadas.

O que dar de comida para cachorro com pancreatite?

A alimentação é parte fundamental do tratamento e do controle da pancreatite. De forma geral, são indicadas dietas com baixo teor de gordura, alimentos de alta digestibilidade e refeições fracionadas ao longo do dia.

Em muitos casos, o veterinário recomenda rações terapêuticas específicas para pancreatite ou doenças gastrointestinais. A introdução da alimentação deve ser gradual, respeitando a tolerância do animal.

O que um cachorro com pancreatite não pode comer?

Os cães com pancreatite não devem consumir alimentos ricos em gordura, pois eles estimulam excessivamente o pâncreas e aumentam o risco de novas crises. Portanto, é contraindicado oferecer:

  • restos de comida humana;

  • frituras, carnes gordurosas e embutidos;

  • petiscos muito calóricos;

  • alimentos temperados ou ultraprocessados.

Mesmo após a recuperação, muitos cães precisam manter restrição alimentar permanente, principalmente nos casos crônicos.

Tratamentos caseiros funcionam para pancreatite em cães?

Não, os tratamentos caseiros não são suficientes nem seguros para tratar pancreatite em cães. A pancreatite é uma condição potencialmente grave, que exige avaliação clínica, exames específicos e tratamento médico adequado.

Remédios caseiros, chás e receitas populares não tratam a inflamação pancreática e podem atrasar o atendimento veterinário, aumentando o risco de complicações.

Diante de qualquer suspeita de pancreatite, o correto é procurar imediatamente um médico-veterinário.

cachorro com veterinária

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Joyce Lima

Com colaboração: Joyce Lima

Médica-Veterinária

Formada pela USP, Joyce possui especializações em Medicina Veterinária Preventiva e um MBA em Liderança de Alta Performance. Apaixonada por sua gata, Mia, ela reflete todo o carinho e dedicação que tem por ela em sua prática profissional.

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